Eu devia estar na biblioteca agora. Ou pelo menos lendo o artigo da Wendy Annecke sobre as relacoes entre genero e energia na Africa do Sul nos ultimos cem anos. Ou lendo African Gender Studies, que eu roubei da Jeanne-Marie, e editado pela estudiosa em Yoruba e genero, Oyronke Oyewumi. Ela escreveu um artigo sobre a invencao da mulher africana pelas teorias ocidentais e me deu uma outra perspectiva sobre os estudos de genero relacionados a linguagem (no caso, o Yoruba), em que outras possibilidades de genero-sexo – como o agenero, o trans-genero e genero neutro – oferecem novos e muito mais interessantes olhares de interpretacao e estudo da mulher na Africa. Eu estou encantada com essas mulheres, mas uma delas em especial me trouxe essa manha ao laboratorio de informatica quando eu devia estar na biblioteca com Annecke e Oyewumi: Dalila.
Ontem a noite, as tres da manha, eu preparava um chocolate quente e paozinho com manteiga. Mesmo com o frio de Stellenbosch e o cansaco eu continuava completamente mergulhada nesse universo que eu pensava conhecer: o novo feminismo, ou o womanismo, ou o feminismo segundo o olhar do Sul e do Oriente, que me desafiam constantemente na procura de um corpo teorico pra pesquisa aplicado a realidade Africana, ou sulafricana. Ontem, eu fui assistir Mutum, o filme da Sandra Kogut baseado no Campo Geral de Guimaraes Rosa. O filme faz parte do festival de cinema de Stellenbosch, e quando eu escolhi assistir eu nao tinha ideia do que viria. Eu passei quase duas horas no Sertao, e tudo o mais depois do filme era Semi-arido (ainda que eu tivesse chorado no fim por quase meia hora). Nao sei o que foi – a paisagem crua do sertao, a lente seca da Sandra Kogut, a palidez sem consolo de Stellenbosch, qualquer coisa em mim secou. Isso nao explica o fato do meu sonho ter escapado pra outros desertos: fui parar na Faixa de Gaza, territorio de Dalila, pendurada numa ponte em bombardeio.
Nao sei dizer o que Freud diria, e se a historia mexeria com seu sangue judeu, mas no momento nao estou muito interessada. Meu bombardeio se deu longe de Viena. A internet diz ter mais de 78.400 resultados para sonhos-com-ponte: superação de dificuldades; novidades no relacionamento social. Que bom. Mas estou diante da Wikipedia e da historia dos conflitos na Faixa de Gaza, dificuldade pouco mais dificil de ser superada, e sem muitas novidades no relacionamento social. Eu estive la ou pelo menos em algum lugar parecido. Dois arabes (de acordo com o que vestiam) me empurravam pra uma ponte que ia de um lado a outro do penhasco. Eu nao posso ver (eu nao estou muito preocupada em ver) os carros, ou qualquer outro aparato militar parado la embaixo. Eu olho pra frente, e a minha frente homens loiros e jovens andam cambaleando pela ponte, que logo se tranformaria num fio em que nos equilibramos e desviamos de bombardeios. Meu coracao esta acelerado – la e aqui – eu nao penso nos homens a minha frente nem no que acontece a minha volta, eu so desvio, e com sucesso. Quando eu me dou conta estamos numa sala, com homens e algumas mulheres – tambem loiras e jovens – assustadas e algumas delas feridas. Eu ando ainda zonza das bombas, e alguns homens gritam porque perderam suas mulheres, e homens e mulheres foram mutilados – mutilacao, foi assim que eu ouvi e essa palavra ficou na minha mente – pelas bombas. Tudo era dor naquela sala, o sangue, os gritos, o medo que ficou no corpo muito tempo depois, o coracao disparado…e eu acordei aqui.
Era 8:12, eu ja tinha tentado levantar as 7:00, enrolado e dormido de novo enquanto a Jeanne-Marie preparava o café na cozinha, ja pronta. Em menos de uma hora eu fui parar em Israel, sabe-se la porque. Corri pra Jeanne e dei um abraco. Meu coracao estava disparado e eu nao tinha cor, ela perguntou se eu tive um sonho ruim e eu nao pude responder – eu estava preocupada demais com aquelas pessoas.
Eu devia estar na biblioteca com as minhas mulheres ensinando como genero, um termo ocidental, foi construido no context africano, em especial no campo das politicas publicas, e no meu caso na politica de energia da Africa do Sul. Ao inves disso estou diante do que a Wikipedia diz ser o lugar em que Sansao se apaixonou por uma mulher filistéia chamada Dalila. Deus planejou que Sansão fosse o líder em Israel. Indo à cidade filistéia de Gaza ele quebra seu voto especial de viver uma vida pura. Os filisteus trancam o portão da cidade e planejam matá-lo. Sansão escapa. Os filisteus subornam Dalila para que ela descubra o segredo da força de Sansão. Três vezes ele engana Dalila. Mas finalmente ele lhe conta a verdade. Enquanto Sansão dorme, Dalila lhe corta o cabelo, onde reside sua forca. Ele é capturado, aprisionado, fica cego e se torna escravo. Deus perdoa Sansão e ouve sua oração por nova força. Sansão derruba o templo filisteu, matando a si mesmo juntamente com muitos filisteus. Assim ele liberta os israelitas de seus inimigos. “Gaza ou Azzah em hebraico, é uma cidade na zona costeira Sul de Israel. Nos tempos bíblicos, Deus deu esta terra santa, ou terra da promessa aos Judeus, como possessão da sua eterna aliança e que se encontra devidamente documentado no seu tratado de Aliança, que é a Bíblia. Os habitantes oriundos de Gaza eram um grupo de conhecidos por Aveus. Este grupo foi depois extinto. Gaza foi conquistada e capturada pelos homens da tribo de Judá (judeus) e foi agregada ao princípio da herança desta tribo. Permaneceu na posse dos cananitas até ao princípio do século 12 A.C., quando foi ocupada pelos Filisteus. Fazia parte do conjunto de cinco cidades dos Filisteus e teve papel relevante no templo de Sansão. Os filisteus foram um povo mediterrâneo, piscatório, distinto, que estão hoje completamente extintos. No ano de 332 A.C., foi a única cidade que se opôs á conquista de Alexandre o Grande, depois os Ptolomeus que governavam o Egipto no período Helenista até ser capturada 98 A.C., pelos assírios, por Antioco III, rei de Seleicidas. A cidade foi reconquistada pelos Hasmo neus em 145 A.C. O rei Herodes O grande não a segurou por muito tempo, mas depois de alguns anos tornou-se uma florescente cidade do Império Romano onde mergiram as comunidades Judaica e Cristã desde a era Romana (963 A.C. a 324 D.C.) e até ao Império Bizantino ( 324 – 1453 D.C.). Gaza, uma zona fértil na plantação de frutas, cereais e vinhas, era um dos três centros principais enquanto ocupado pelos Romanos, na “ Palestina”. Na ocupação árabe, Gaza foi tomada e comunidades Judaicas floresceram sob o comando Árabe. Porém com todas as ocupações da “Palestina”, Gaza foi tomada. No tempo dos Cruzados, foi uma conhecida fortificação. Gaza floresceu no Império Otomano, nos séc. 16 e 17. Em 1665 a cidade tornou-se centro do movimento messiânico, um dos principais discípulos chamava-se Natan de Gaza. Em 1799 foi novamente ocupada por Napoleão. No século 19 a cidade decaiu, os judeus eram mercadores de trigo quem em negócio com os beduínos exportavam para a Europa. Durante a I Grande Guerra Mundial Gaza tornou-se uma fortaleza e posteriormente rendeu-se aos Bitânicos do General Allenby e neste mandato Gaza recuperou muito devagar. Os últimos judeus abandonaram Gaza em 1948, os Egípcios atacaram e invadiram Gaza retornou ás mãos de Israel em 1967. Desde 1949 que a faixa de Gaza foi colocada sob comando Egípcio. Existem em Gaza inúmeras evidências arqueológicas da manifestação de relatos bíblicos e da presença Judaica na terra (sinagogas, menorah, shofar, lulav, etrog e muitas inscrições hebraicas) A retirada das comunidades judaicas estava prevista para o dia 17 de Agosto de 2005 mas ouve algumas pessoas que não quiseram abandonar o território que é deles. A vários mapas que apontam Gaza como uma terra que pertence a Israel, mas para Israel ter paz cedeu Gaza sobre a pressão dos Americanos. Mas o que é verdade é que Israel cedeu Gaza e agora os Palestinos querem ainda Hebrum. A verdadeira ambição dos Palestinos e conquistarem de pouco a pouco Israel até Jerusalém, muitas nações queriam a terra de Jerusalém pois a Bíblia diz que é dela que o Messias descerá a terra. E os Palestinos usam a estratégia de pressão, oferecem guerra e como Israel quer paz vai cedendo terras. Todos os judeus esperam que isto acabe e que seja dado a Israel o que é de Israel e que seja retirado a Israel o que não é de Israel para que haja paz. Paz…”
Obtido em “http://pt.wikipedia.org/wiki/Usu%C3%A1rio:Rute_Sousa“
A historia de Gaza e uma historia de disputa e dor, como a historia de Dalila e Sansao e das tribos de Israel. Ainda assim, estou mais interessada em outra historia. A dos ataques em 27 de Julho de 2006, quando o exército de Israel lançou um míssil em uma grande ponte com a justificativa de impedir que militantes levassem um soldado israelense capturado de um lugar a outro. Quero entender o que acontece nesse pedacinho do mundo que e Israel e por que eu fui parar la. Mas, muito alem disso, eu quero saber que mundo e esse que eu nunca vi e que vem sendo traduzido ou decodificado pelas midias ocidentais – eu quero o Oriente, e eu venho mastigando lentamente cada pedacinho dele que cai no meu caminho, e seu sabor. Meu caso de amor com Krsna, minhas incursoes no Bagavhad-Gita e a batalha de Kuruksetra. A Africa, suas mulheres, o feminismo africano, as batalhas das mulheres africanas que nao fazem eco senao atraves das analises e metodologias pos-coloniaslistas. Quero ir la, onde a dor existe, quero experimentar o oriente, o Yoruba e seu des-sexo, quero viver o Oriente pra finalmente entender os erros na traducao e o que foi perdido na nossa retirada do leste ao oeste – provavelmente o essencial.
Sao 10:27 e eu devia estar na biblioteca. Tenho que enviar o projeto de pesquisa do mestrado pra Prof. Cheryl Walker, uma das mulheres mais importantes no debate sobre genero e questoes de terra na Africa do Sul. Ansiosa, mas feliz, e me sentindo privilegiada por poder ler essas mulheres todas, do Senegal, de Gana, e de outras partes de Africa. Penso mais nas mulheres e homens arabes e judeus e nas meninas que nascem em terras de bombas e pontes quebradicas e pra quem a palavra mutilacao deve ter outros sentidos e dores. Penso em caminhos que eu percorro no meu ocidente – mais do que nos meus simbolos infantis e desejos reprimidos impressos ali – volto da viagem com saudade da teve que eu nao assisto ha dois meses, o universo azul-colonial que vai dos Smurfs a cara de Krsna. Penso nas minhas mulheres, Augusta, Marta, penso em mim, nos meus hemisferios. O proverbio de Salomao diz que e melhor morar no canto do sotao que viver numa bela casa com uma mulher briguenta. Pois que decidi morar com a minha mulher briguenta. No canto do sotao, bombas sobrevoam o ceu de Gaza, na ponte empoeirada de sonho, o ceu de Dalila.
Haribol.