“Deixa-te semear ao comprido.”

Joao Cabral de Melo Neto

 

 

Fiquei pensando nessa historia de ter blog, de escrever todo dia ou de ter que. Se eu tenho que ficar dependente de um episodio inusitado no meu cotidiano pra pensar um post, nas minha relacoes, no meu sonho, nas minhas idas e vindas em Stellenbosch – e que no fim das contas nao passa mesmo de idas e vindas, do comeco ao fim da Bird street, a ruazona principal dessa cidade, que liga minha casa, meu mundinho, a lugar nenhum. Nao tem muita metafora disponivel em Stellenbosch.

Mas, mais do que isso, eu nao sei falar da minha experiencia como eu saberia falar de qualquer experiencia minha em Santos, por exemplo. Tem uma coisa dificil de traduzir sobre Stellenbosch (como quando as pessoas me perguntam Stelle-que?), uma coisa dificil de traduzir sobre morar aqui, sobre ser aqui, e mais. Minhas conversas com meus pais, quando o Ingo me liga de madrugada (o fuso confuso!), sao sempre um desconforto de falar minha lingua, como se minha experiencia aqui nao coubesse nela.

Tambem funciona ao contrario. Se aqui eu penso minhas experiencias em ingles, o que eu sinto ainda e na minha lingua. Por isso e dificil viver na Africa do Sul filtrando os sentimentos na lingua estrangeira, por isso eh dificil expressar isso de qualquer forma.

Nunca mais tive o sonho de guerra. Penso que o sonho de guerra foi assim minha Babel de lingua e desejo, foi um monte de coisa sofrendo bombardeio, foi um monte de pontes que eu insisto em fazer aqui. Eu podia tecer uma novelinha particular bloguistica, mas nao consigo, porque eu tenho me acostumado em nao dizer nada, nao tecer luz balao. Por isso escrever virou uma missao.

Tento  estudar calatonia pela impossibilidade de me comunicar num ambiente terapeutico. O toque e uma lingua bem efetiva. Tenho tentado toques sutis e “apurados” como quem aprende uma lingua estranha. Por isso eu concordei com o Pedrinho que disse que meu texto eh sem pe nem cabeca: desaprendo os limites dessa minha lingua, aprendo outras muitas, sem lados, e com corpo esquisito. Fica dificil contar o cotidiano assim, mesmo que ele se resuma a ir e vir na Bird Street sem metaforas. Fica mais facil o toque.

Eu talvez ache a lingua do Pedro complicada, como a de muitos homens, como isiXhosa, que a gente tem que se desmontar, desaprender a nossa pra reaprender a falar na deles. Tenho desaprendido a lingua de homem pra falar uma lingua mais mulher, que eu desconheco. Estou perto de muitas mulheres, ouvindo as conversas com a minha estrangeirice – a Michelle e Chelsea americanas, a Nina sueca, eu brasileira, Jeane-Marie sul-africana e nos nos estranhando, sempre. Quando a gente resolve andar junto e um monte de lingua cruzada, como nesse fim de semana. Um fim de semana com mulheres, como andar em muitos paises ao mesmo tempo. Me perdi algumas vezes, literalmente, e voltei pra casa sem entender.  Esse fim de semana nao foi diferente. Eu sempre quis dizer que eu nao sei nada de ser mulher, pra depois defender quem diz que ser mulher e ser obscura. Mas fui pra Cape Town com essas mulheres dificeis de por em qualquer fala. Aconteceu que

A Nina dirigiu. Quando iamos dividir o preco da gasolina ela disse: acho que dessa vez posso ficar fora dessa. Eu nao entendo quando a Nina tem ataques de raiva gratuitos, e mais, quando isso sobra pra todos, como se ela vivesse carregando a raiva do mundo nas costas e no fim do dia ela pensasse “voces podem me deixar for a dessa pelo meos uma vez!”. Concordamos assim. A Michelle eh uma guru da analise do gosto e da lingua dos outros. Quando eu tenho preguica de perguntar pra alguem eu pergunto pra ela, como se ela soubesse tudo. A Michelle e forte, mas a Nina disse algo como se tratasse com uma crianca de 10 anos, com toda raiva, ela comecou a chorar e virou uma crianca de 10 anos, que se recusa a ser tratada assim. Eu me assustei, sem falar nada. Quando ela solucava na minha frente, eu perdi as palavras, como quando eu perco as palavras com a raiva da Nina. Eu sempre leio os momentos da Nina como braile, sinto e nao entendo. Penso em coisas indolores como “podia comer Fandangos agora!” ou “quanto e um saco de mexerica no Pick’n Pay?”. Olhar pra Nina quando ela ataca eh uma experiencia mais curiosa que assustadora, como assistir uma palestra em japones, sei la. Foi assim olhar pra Michelle no domingo, uma dor que eu nao posso entender, uma dor sem pe nem cabeca, como o Pedro disse, porque nao e minha. Eu falei: nao sai agora, vamos no banheiro. Sentei de frente pra ela sem poder dizer nada. Acho que ela esperou que eu fosse dizer. Eu so fiquei olhando, e de uma forma ou de outra, foi o toque. Foi que nos entendemos, numa linguagem possivel.

Nos duas trabalhamos com mulheres, mulheres em risco social, mulheres tocadas por agressao. Eu acho que e por isso que fui ler Calatonia hoje. Quero conhecer de toques sutis, da gentileza dessa lingua que nao requer muito da interprete. Tenho uma vontade imensa de conhecer as mulheres, mas nao pra traduzir mulheres. Uma das coisas que gosto na calatonia e o nao querer nada dessa tecnica. O toque, a comunicao gentil, sem expectativas. Exercitar isso.

 

Nao sei o que ficou do episodio do fim de semana. Foi um fim de semana de mulheres, que ainda nao sei contar. Falamos de amor (essa palavra de luxo) falamos de muita coisa, discutimos, ainda que eu tenha ficado longe, como fora do palco. Voltamos pra casa. Ate agora nada explica meu profundo desisteresse em relacao aos homens daqui. Me sinto estranhamente atraida pelo obvio, pela obviedades, pelo que a Nina chama do que “ela nao sabe lidar com as mulheres, e sobre elas”.  Estou num caminho inverso da Nina, como se eu subisse a Bird em direcao a favela de Kayamandi, pros lados complicados onde eu moro, e ela fosse pro lado da Dorp Street, oposto, os barzinhos metidos, lado pouco mais tranquilo (e sem graca).

Toda vez que penso nas mulheres e pelo dialogo que inclui mulheres nos planos e nas estrategias de desenvolvimento, por causa da bendita tese. Se eu penso que falar de mulheres precisa necessariamente falar lingua de mulheres, nao vai ser nada facil ja que nem mulheres querem saber todas elas – como a Nina, como eu diante da Michelle, como a Chelsea, que nao falando nada nao ensinou muito. Meu ingles ja me da muito problema! Vai soar, como meu jeito de escrever parece pro Pedro sem pe nem cabeca, como a Bird Street sem metaforas, so gente que passa, com tedio, monotonas e sem jeito, sem querer dizer nada e levando a lugar nenhum. Como o tocar sutil da Calatonia, que eu quero aprender, que eu quero aprender nao ter que dizer.

E na falta de um bom final,  Joao Cabral:

”Em situação de poço, a água equivale

a uma palavra em situação dicionária:

isolada, estanque no poço dela mesma,

e porque assim estanque, estancada;

e mais: porque assim estancada, muda,

e muda porque com nenhuma comunica,

 porque cortou-se a sintaxe desse rio,

 o fio de água por que ele discorria.”

 

 

E eu, rio abaixo rio adentro, o rio.

 

 

Sobonana!