Ler e-mail antigo sempre vai ser tabu pra mim. Mas como Humarga (esse laboratorio de informatica) ja me viu chorando umas quantas vezes, eu ousei reler.  Sofrendo 1) de profunda incapacidade de ler um texto – por mais que interessantissimo – ate o final e 2) de uma ansiedade absurda por qualquer coisa que comece, eu fui pesquisar a caixa de enviados no meu e-mail, desde os primordios. Coisas bonitas da Africa do Sul, coisa que eu escrevi quando eu vim pra ca da primeira vez, quando tudo era bonito e  novo…coisa que eu quis reler.

Agora chorando, claro. E sem vergonha.

 

From the “Rainbow City”

Monday, August 07, 2006 11:40:25 AM

 

“Eu sempre achei que a Africa fosse marrom. O marrom na terra e na gente, o continente pardo que eu tinha em mente, aquele jeito que o povo tem de pensar na Africa como um lugar monocromatico. Do alto do aviao Johannesburgo parecia ser de fato um mar marrom. Mas a primeira cor que eu vi quando atravessei o oceano (e estava tudo escuro na janelinha da South African Airways porque de repente virou madrugada) foi o laranja do ceu nascendo. Como no rei leao (obvio que veio a mente aquela trilha sonora das savanas), aquele clarao alaranjado era o verdadeiro sinal de que sim, eu havia conseguido dar esse passo, e daria outros mais. Claro que nao foi tao facil.

No saguao do aeroporto eu passei maus bocados. Na fila do passaporte eu chorava tanto e tremia de medo que o policial chegou a verificar meu passaporte duas vezes (hahaha) Enfim. Ainda dava tempo de desistir. Mas eu fui. Me assustei com a falta de delicadeza das negonas sul africanas no aeroporto. O ingles da tripulacao era pavoroso, eu nao entendia lhufas, e tinha um coreano do meu lado com quem eu falei ingles por mto tempo ate perceber que ele havia morado no Brasil e falava portugues (daaaa), foi um tanto embaracoso. No aviao tinha uma tevezinha ultramoderna em que eu assisti Out of Practice e Two and a Half Men, o que me fez lembrar que em tempos de imperio americano nenhum lugar eh longe demais.

Quando pisei em Joanesbugo nao tive tempo de comtemplar. Meu voo para Cape Town sairia em apenas 1 hora e eu nao fazia ideia de absolutamente nada. Comecei a andar atras do primeiro cara que vi, e isso foi me levando aonde deveria chegar. Com o tempo descobri que o cara era brasileiro (pelo passaporte verdin!) e que estava indo ao Zimbabue, nao sem antes dar uma passada em Cape (combinamos de enviar um e-mail no fim do mes). Descobri que nao ha nada que de mais seguranca do que alguem que fala sua lingua, e especialmente com sotaque nordestino (o cara eh do Piaui) — eh como se por isso eu pensasse “ah, eh brasileiro messsmo” por causa do sotaque. Enfim. Devaneios a parte, foi um tanto aterrorizante aquela altura descobrir que meu ingles era tao diferente do deles. E tb que eles falavam outra lingua entre si (eh angustiante, para uma pessoa paranoica como eu eles sempre estao falando mal hahaha)

Bem, nao vi o famoso muro com a frase do Mandela que eu achei que choraria pencas, mesmo porque estava em construcao (eu, como boa analogista, achei que essa seria a grde metafora dessa viagem: menos devaneio e comtemplacao, mais vida real). Enfim. Chegando a Cape eu percebi que nao, a Africa nao eh marrom como eu pensava, ela eh cheia de cores. Quando o sr. Bidwell (cara que foi me buscar na chegada) um negao desses piadistas, perguntou por mim no aeroporto (Sim, Juja e Lala, eh mais que chique ter alguem no aeroporto esperando com o seu nome numa placa! mas nao tirei foto) uma das primeiras coisas que ele disse foi: Cape Town is the Rainbow City! Que lindo, pensei eu, nada de africa monocromatica, estou na cidade arco-iris, que coisa mais linda de se dizer. Tb se diz que Cape eh a mother city, porque pessoas de todos os cantos da AS vem pra ca, e falam diferentes linguas. A segunda coisa que ele disse foi “eh o seu primeiro dia na africa e vc ja quer dirigir?” sim, eu esperava que ele abrisse o lado direito da porta, so que eh esse o lado pelo qual se dirige na AS, a moda inglesa. Ele riu pencas da minha cara (ele disse que faz isso com todos) e depois fomos em direcao aos meus “aposentos” na famosa Kloof Street.

Eu estava tao loucamente entretida com o Sr Bidwell (muito chata na verdade, eu faltava perguntar a cor da cueca do cara). Ele disse que era da Suazilandia, e que sua primeira lingua era o Xhosa. Ele tb fala Afrikaans, a segunda lingua mais falada na AS. Claro que eu fiz o Sr. Bidwell falar um pouco de xhosa, e ele me ensinou a dizer “qual e o seu nome”, o que eu obviamente jah esqueci. Ficamos conversando e eu aproveitei pra desatar meu ingles antes de chegarmos a casa, pra descontrair. O sr Bidwell perguntou se no Brasil falavamos ingles alem do portugues, o que eu achei um elogio tremendo. O ingles do Bidwell para minha alegria era nao soh compreensivel, mas uma graca, conversamos livremente e isso me deu coragem pra falar com as pessoas da casa. Ele disse que eu parecia sul africana (imaginem como fiquei orgulhosa) e pra eu nao me assustar se falassem comigo em afrikaans, jah que pensariam que eu era “coloured”, que eh como eles chamam a mistura do branco e do africano (e que aqui na AS significa aquele que fala as duas linguas, mas que tem o afrikaans como lingua mae). Na verdade eu descobri que era lei estudar o afrikaans na escola, e as as criancas sao alfabetizadas nas duas linguas. O que aquele pessoal da South African Airways falava entre si era entao o afrikaans, um holandes misturado. Quando cheguei em casa ouvi uns latidos e fiquei louca (cachorros! gracas a deus! eles falam todas as linguas! eh um cliche ridiculo, mas um lugar com cachorros eh outra coisa). A Anne Marie me recebeu na porta com um sorrisao que eu sabia pelas fotos que ela tinha. E eh exatamente como nas fotos! Ela eh extremamente carinhosa sem ser grudenta, me deixou realemnte a vontade sem fazer umgrande esforco pra ser legal. Os cachorrinhos ohhhh. Lembrei da Ga na hora: o primeiro que conheci foi o NELSON hahahaha (Seu Geraldo tinha razao, eu conheci um Nelson em Cape! hahaha) Alem do Nelson tem a Sushi que eh filha dele, eu nao sei bem a raca deles, mas eh tipo o caozinho do mascara, sabe? Enfim. E um gato. Um gato preto, que some (a Anne sentou em cima dele um determinado momento da conversa, foi quando descobri que havia um gato. Ela disse “oh, I just sit on the cat”! hauhaha. Eu disse “tem um gato nessa casa?” e descobri que sim, embora ele seja mais metido que os cachorros, aparece de vez em quando. Maravilha que o nome dele seja Tolouse, de Tolouse-Lautrec (o pintor frances de posters, que fez o que eu tenho pendurado sobre a cama no meu quarto).

A casa eh simplesmente linda. Ha uma outra impressao em Cape alem das cores: o cheiro. Nao sei porque tudo aqui tem cheiro – e bom! Eu ja tinha achado estranho que qdo entrei no aviao a tripulacao tivesse passado um spray com a gente la, especie de bom ar, soh que sem ter cheiro de banheiro. Era um cheiro doce, e eu achei estranho, falei pro coreano “po, eles querem matar a gente aqui” e ele soh riu e balancou a cabeca. Mas enfim, a casa da Anne eh extramente cheirosa, tem cheiro de gente depois do banho, algo assim. A escola tb cheira assim, mas eu ja chego la. A Marisa me viu e parecia que nao tinha dado a minima que eu havia viajado quase 10 horas soh pra chegar ali. Ela balancou a cabeca como se desse oi e foi preparar um chocolate pra tomar (se eu nao soubesse que ela era surda e toda a historia acharia que ela estava querendo era que eu fosse embora e que ela voltasse a sua rotina diaria). A falta de atencao da Marisa foi compensada com a atencao da Anne. Ao fundo tocava musica classica. Quandros de musica, danca e outras artes por todos os lados. A casa tem 300 anos. Eu tenho um quarto muito fofo e uma cama fofinha cheia de travesseiros. Tudo cheirando a amaciante. O piso eh todo de madeira, daquela epoca ainda. Tudo limpinho, arrumadinho, tudo certo. Ela preparou uma cesta cheia de panfletos de Cape e dos passeios todos alem de uma pasta da Geos (a escola de ingles) com as licoes que ela tirou xerox de outras meninas. Tinha duas toalhas do Brasil qdo eu cheguei e que ela pois ali pras boas vindas. Essas toalhas, junto com coisas da Natura, ela ganhou de outras estudantes brasileiras que passaram por ali. Conversamos bastante e ela disse que meu ingles era muito bom. A Marisa sentou do nosso lado, mas ainda parecia estar um pouco alheia. As vezes quando faziamos alguma piada ela falava mais lentamente na direcao da Marisa pra que ela lesse seus labios. O ingles dela eh lindissimo, adoro. E ela tem uma voz linda, imponente, ela eh uma legitima professora de musica, se encaixa bem no estereotipo. As vezes ela fala com a Marisa em afrikaans e eu nao entendo, mas ela diz que isso eh bom pra ela (Marisa nasceu surda e ainda assim pronuncia palavras com alguma facilidade e fala ingles e afrikaans). Fiquei sabendo que ela tem sim os dois implantes, e eles a ajudam muito. A Anne disse que ela ainda esta passando por uma adaptacao psicologica, segundo ela.
Qdo passava das cinco comecou um frio muito louco. O clima de Cape eh seco (tenho que sempre beber agua aqui), eh como frio de interior que parece que nao eh tao frio, mas seu dedo fica roxo e vc solta fumacinha pela boca. A calefacao de casa eh quase piada, e por ser uma casa antiga o teto eh bem alto, e nao esquenta nada. A noite Anne me preparou um chocolate quente (maravilhoso por sinal, da Nestle) e torradas. Fiquei assistindo Desperate Housewifes na tv (episodios novos!!!
ebaaa) e tentando dormir (problema de fuso horario eh uma meeeerda). Resolvi espontaneamente nao tomar banho ontem e a Anne falou pra que eu tomasse banho no dia seguinte pois estav muito frio. Ela disse que eu poderia fazer ligacoes de casa com cartao telefonico internacional, isso eh otimo. Quando fui dormir reparei que minha cama estava super quente, explicacao: a Anne faz umas compressar de agua fervendo (tipo bem a moda antiga, aqueles sacos de plasticos cobertos por uma lazinha) e deixou uma embaixo do meu cobertor pra esquentar a cama e o colchao — maravilhoso! Me ajudou a dormir. Li as cartas do Ed e do Serginho e o livrinho da minha mae e tentei tirar Santos da cabeca (apesar de ateh agora nao ter conseguido mudar o horario do relogio, pra sempre que olhar a hora pensar coisas do tipo “ah, agora meus pais estao acordando” etc etc). Bem, a Anne me acordou com cafe na cama (quer mais o que??? ela disse que era por ser o meu primeiro dia). Ela foi fofa e nao tentou me acordar. Eu olhei no relogio e vi 3 da manha, po, porque ela ta me acordando essa hora? Ate lembrar de somar mais cinco horas. Daaa! Enfim, as vezes nem parece que estou fora pq me acostumo facil a falar ingles (soh quando a Anne poe a radio em afrikaans pra Marisa ouvir e parece que estou em outro planeta). Eh estranho que as vzs estou assistindo a tv em ingles e de repente passa um comercial com um monte de pretos e falando afrikaans e eu “caraca, onde eh que eu to mesmo?” e ai eu lembro outra vez.

A Anne me levou de carro a escola (que nao eh 2 minutos de casa nem a pau) junto com o Nelson e a Sushi, que foram peidando no carro o caminho inteiro, mas isso nao vem ao caso. A Anne me explicou um pouco das ruas e tal, passamos na frente do Slavery Museum (museu da escravidao) e eu ja cou lah saindo daqui. As vezes eh deprimente pensar que farei todos essses passeios sozinha, sem ter com quem dividir. Hoje no almoco fui com uma amiga italiana, Daniela, que fiz por aqui, foi um pouco melhor. Mas ela vai embora em 1 semana e vai ser triste comer sozinha (mas vou me virar). Meu ingles ta beleza, fiz o teste hoje cedo e gracas a deus nao vou ficar no nivel basico (eles me puseram com um pessoal do intermediario) e depois desse eu vou pro avancado (dependendo do meu desempenho). Na minha classe hoje: meu professor Lee (que disse que eu tenho cara de sul africana, como o Bidwell disse no primeiro dia — estou comecando a me achar por isso. Hoje no restaurante paguei um sapo de “sou local” hahahah). O Lee eh marrom (coloured como eles falam) e fala afrikaans e ingles muito bem, apesar de as vzs se embananar um poquito com a pronuncia. A Dani, da Italia, que eh uma fofa, sabe bem gramatica mas tem um sotaque iataliano terrivel; o Said, da Turquia, que anda com um dicionario embaixo do braco e quase nao fala; o Abdullah, da Arabia Saudita (ele sao a grande maioria da escola, parece que o arabe eh a segunda lingua quando entro aqui!!!), a Anikk uma africana preta retinta que nao para de falar, jah ta a 6 meses aqui e conhece todo mundo, ela eh do Gabao um pqueno pais do norte da africa, onde se fala frances. Ela esta tentando entrar na Universidade de Cape Town, e fazer direito. Tem a Ann, que eh da Coreia do Sul, uma fofinha. Por eqto eh soh. Comemos num bom restaurante, tomei coca (pessimo, neh?) e um hamburguer muito louco. Eu e Dani gastamos 100 rands, 50 cada uma, mais ou menos 16 reais pra mim. Achei meio caro.

No mais, tudo certinho, tenho que fazer conversao de moeda amanha, tenho que comprar o bendito cartao internacional pra poder ligar ai, e tb vou tentar passar no museu antes que escureca. Combinei com a Dani de ir na lavanderia amanha. To comendo que nem louca, tomando cuidado pra nao ser dessas pessoas que vao fazer intercambio e viram porpeta. Ha. Tb to aproveitando que a Dani ta aqui pois eh perigoso andar por ai sozinha. Em relacao a lingua, ta tranquilo. Nem preciso dizer que to querendo aprender o afrikaans, mas isso eh outra conversa. A Anne vai marcar com um amigo dela psiquiatra pra eu conhecer uma clinica de hospital local. E ela tb prometeu me levar pra conhecer a UCT (ela insiste pra eu assistir a algumas aulas de psico por la).

Enfim. Estou indo. Ainda eh dificil sentir que estou sozinha (se esses arabes putos nao parassem de falar arabe aqui do lado!!!) mas eh algo com que tenho que lidar. O frio tah fo-da, nao imaginei que ia ser tao frio, mas da pra aguentar (a noite eh meio dificil. Bom, tenho que ir antes que escureca (e os arabes putos dominaram o local e tao me tirando do serio). Espero que tudo esteja bem por ai, estou sempre pensando em vcs (principalmente qdo olho o relogio) mas sempre cuidando pra nao cair com saudade. Parece que vou me dar bem aqui. Me disseram que mes que vem o tempo melhora, e que o verao aqui eh algo inesquecivel. Vou esperar. No mais, eh lindo estar aqui. Vou caminhar um pouquinho a pe (meditando) e olhando as ruas. Vamos ver se sei voltar pra casa. Vai ser uma aventura interessante. Essas coisas pequenas que nunca fiz, ir ao banco, lavanderia, voltar sozinha pra casa, comprar uma coisa ou outra, procurar restaurante — pra mim eh tudo grande e novo! Ateh falar! Eh quase infantil isso. To sentindo a cabeca pesar um pouco e fiquei tonta o dia inteiro — o Lee disse que eh o “jet lag”, o horario do fuso que deixa a gente assim, meu corpo precisa se acostumar com a ideia de comecar o dia as 3:30 da manha! Enfim. A comida foi uma delicia, apesar de ateh agora eu sentir que nao digeri hahahah… vcs precisam ver que hamburguer! Pra variar eu pergunto o nome de todo mundo e cinco minutos depois eu esqueco (ate isso estou tendo que aprender, a anotar coisas! jah pensou?)
Bom, acho que isso eh um bom resumo das minhas primeiras impressoes. Quem me visse agora perceberia como estou feliz. Espero que isso perceptivel nas entrelinhas desse e-mail. AMO VOCES DEMAIS. Vo, nao se preocupe porque estao cuidando de mim muito bem, e vc ficaria surpresa se visse como eu sei cuidar bem de mim tb…E Ed, seu colarzinho esta tendo um efeito terapeutico pra mim, porque parece que me identifica por aqui– e agora um efeito mitico, porque cismei que me da sorte.
 
No mais, cuidem-se. Se os arabes deixarem, estarei nesse pc todo santo dia, escrevendo como louca e matando um pouco da saudade.

f.
 
ps.: O horario aqui eh 5 horas A MAIS. Portanto, eh possivel que eu esteja no msn todos os dias as 15h aqui (hora que termina minha aula) o que significa que eh 10 DA MANHA ai no Brasil, pra quem quiser falar ao vivo.

Inte.”

 

Em tempo:  Nao acho que o Mr Bidwell era da Suazilandia (eu devo ter entendido errado, ou talvez a familia dele seja de la). E “qual e o seu nome” em isiXhosa e…“ngubani igama lahko?“. Aprendi ontem, Mr Bidwell ficaria orgulhoso. Tem um monte de coisa meio desencontrada ali, mas eh como todo comeco. Em tres meses vai fazer dois anos que cheguei aqui pela primeira vez. Caraca.]

 

 

 

Esse ainda e bonitinho – os nao tao bonitinhos, os feinhos e tambem os funestos merecem ser publicados. Virao.