Aquela historia do cara com problemas em casa e que resolveu colocar um bode dentro. Eu reclamando de solidao aqui e acola, Jeane-Marie fazendo serao sexta noite no trabalho, eu louquissima esperando pro jantar (ela sempre promete sopinhas e spaguettis que eu nunca vejo), o que quase nos levou inevitavelmente ao divorcio. Ai ela arrumou o alemao, Tobias, meu bode. Nao deu outra. Eu acordo, a cara inchada, o pessimismo matinal, a Jeane ja foi – e ele la. O alemao dorme e acorda com ela, depois perambula pelo apartamento (e o pior: com o cabelo todo desgrenhado e na pontinha do pe, essa mania!). Parece a hiena hardy, so que maior e com um bom humor insuportavel. Eu amo o Tobi. Mas sair de casa e voltar pra casa com ele – e eventualmente dar de cara com ele de cueca atravessando pro banheiro – tem me feito apreciar meus momentos valiosissimos de solidao.
Pior e minha flatmate na sua versao mais doce. Agora ela escreve mensagens de textos no celular dele, nao no meu. Agora ela nao reclama mais do chefe quando chega em casa, e quando ela nao reclama do chefe ela nao fica com raiva contida, sem raiva contida la se vao os ataques de limpeza compulsiva, sem os ataques de limpeza a casa e uma zona. Nunca mais ela reclamou do lixo que eu nunca ponho pra fora. A coisa fica apodrecendo, vez ou outra eu enfezo e carrego sem ela perceber. Ela nao guarda mais a comida e poe nos potinhos, ela perde a hora – juro – e as vezes ela ri quando percebe que eu desliguei o geyser a noite e a gente nao tem agua quente de manha. Eu percebo que ela nao adiciona novas regras no cartaz de regras do flat (que sao todas pra mim). Nem sublinha mais os termos especificos das regras, como antigamente, ja que eu teimo em nao seguir. Ela bagunca as tampas de tapeware. Ela nao organiza os copos de acordo com o tamanho e nao lava o tapete da cozinha e do banheiro com uma regularidade doentia. O alemao avacalhou com a minha flatmate.
For a isso, encalcos. Comeu todo o resto do meu pao puma, e ainda teve a pachorra de deixar so as cascas, uma de cara pra outra. Colocou minha manteiga na geladeira, e ficou dura. Tomou banho, mexeu nao sei no que, derrubou meu alargador no ralo e ainda foi pra sala com o par na mao perguntando “que porra e essa aqui?”. Lembrado gentilmente de que era o meu brinco, ele riu e ainda disse “culpa sua que colocou ali, Nanda. hehehe”. Claro que foi culpa minha. Culpa minha tambem desligar o geyser, e voce tomar banho gelado de manha, safado. Nao para por ai. Quebrou o carro da Jeanne-Marie. Deixou o farol aceso e arreou a bateria. Seu Thomas, o pai dela, veio dirigindo de Malsmesbury ha alguns bons quilometros, so pra consertar o treco. O outro ainda tava de pijama. Nao contente, ofereceu sanduiches ao HIV Office todo, onde ela trabalha, pra desespero dela, que gastou quase 100 mangos sulafricanos em frios e salada. Nunca arrumou a cama, coisa que ela abomina (“nao posso ficar com alguem que nao arruma minha cama”, nas palavras dela) e o grand finale: derrubou a taca de vinho toda no laptop dela, que ja nao funciona. Eu pensei que era o fim dos dias pra mim, Jeane-Marie e Dupree. Tava errada.
E o meu bode nao tem intencao nenhuma de partir e me ensinar a licao. Outro dia eu chego e Dupree e nossa convidada Aida – sim, pra completar tivemos uma amiga da JM em casa por uma semana – estao sentados tendo um piquenique na sala. Sem me preocupar se isso tem alguma coisa a ver com os 17 livros que eu deixei espalhados na mesa, investigo o motivo pra tanta alegria. Surpresa!, nosso alemao preferido deve ficar pelas redondezas do meu quarto ate 26 de maio, provavelmente zanzando em sua samba-cancao. E eu amo o Tobi, nao e isso. Eu amo mesmo. Aquela vozinha de desenho animado dele, o sotaque de Celine Dion gripada que ele tem. A paixao dele por fotografia e pelo Canada, por ele ser cineasta, por ele ter se apaixonado pela Africa do Sul, por ele ter paciencia com a Jeane, por ele ser interessante, inteligente e proximo. Mas a proximidade tem me feito ver aquele lado do Tobi que so a Jeane conhece, com a unica diferenca de que ela quer.
Mas va la. Aida e uma menina linda e diferente, foi bom ter alguem assim em casa, amoleceu a Jeane um pouco. As escrituras (como eu chamo o papel com as regras) continuam la, sempre a me fazer rir, pelo menos. Continuo nao limpando a banheira com Handy Andy depois que eu uso (porra, achei que banho era pra isso!); continuo nao desligando os plugs quando eu saio (com excecao do geyser, hoho), enfim. Mas resolvi fazer as minhas tambem, embora nao ache que funcione. Algo como “Se comer todo o pao puma, eh de bom grado comer tambem as cascas” ou “Favor fingir que as calcinhas nao estao penduradas no chuveiro”. Ou talvez, fazer do seu bode alemao um estilo de vida! “Se ficar em casa por mais de tres dias, favor dar carona” ou “a cada tres cafes tomados voce paga um cerveja”. Se ele trouxer minha toalha no banheiro cada vez que eu esqueco, levar minha roupa pra lavar e me levar pro campus de manha eu posso considerar. No momento a labia do Tobi garante o lugarzinho de bode dele amarrado no sofa. Fora o desconto merecido pelo fato de minha querida control-freak nao ter notado meu atraso significativo no aluguel e a geladeira que depois de dois dias sem eletricidade, descongelou, congelou de volta e agora descontrolou toda e congelou o danone. E a minha manteiga, claro.
Hamba Kakhule – porque eu to com preguica de procurar a versao alema.